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terça-feira, 21 de junho de 2011

Simplicidade

   "Sou do tempo em que tristeza era curada com um pedaço de goiabada com queijo, mas hoje não. Qualquer tristezazinha já tem de ser medicada com comprimidos que entorpecem a alma. Eu já disse para a Liana não dar ouvidos ao médico que ela arrumou para curar a sua depressão. Coisa mais esquisita. Só porque está um pouco ansiosa, fato normalíssimo na vida humana. já foi diagnosticada como deprimida. Tristeza agora tem outro nome?
  Isso é falta do que fazer. Se lavasse uma mala de roupa por dia, certamente estaria bem cansada para dormir a noite toda, mas não. São três ou quatro empregadas. Passa o dia todo sem colocar a mão numa louça suja. Deixo pra lá!
   [...]
   Eu andei plantando umas mudas de alecrim na porta da cozinha e agora preciso esperar o tempo da terra. Lembro-me de que minha mãe gostava de repetir que a terra tem o seu ritmo próprio. Gostava de plantar roseiras em dias de Sexta-feira da Paixão. Fazia as mudas com as podas, e depois distribuía entre a vizinhas como se estivesse curando as dores do mundo.
   Nunca vi uma mulher mais resignada que minha mãe. A sua labuta não tinha tréguas. O ofício de ser mulher era aprendido e ensinado nas pequenas coisas. Broa de fubá com amendoim era sua especialidade. - Forno é lugar por onde a gente prende o marido! - dizia. Eu levei tempo para entender, mas os sabores são laços que garantem a conjugação do amor eterno. Não há amor que resista a um arroz requentado. Coisa mais triste é ver pingar a água no arroz encaroçado na panela fria. O bom do amor é sentir o cheiro do alho no óleo quente, o barulhinho do arroz refogando, dourando junto da cebola moída, só pra dar gosto. Doura o arroz, dura, dura o amor.
   Um arroz feito na hora é um tijolo na reforma do mundo. O cozimento que o fogo realiza parece atingir uma realidade superior, imaterial. a cozinha é lugar de amor eterno. Moa nos potes de tempero, nas latas de quitanda fresca, nos tabuleiros de bolos caseiros e pães artesanais.
   Sou da época em que o fogão à lenha era o coração da casa. A labareda e seu poder de manter os filhos ao redor da mesa! A vida era artesanal. A felicidade se escondia numa panela de barro com carne moída e abobrinha.
   Sou do tempo em que o mingau de fubá era a primeira refeição do dia. A roupa branca quarando no varal, o cheiro de broa de milho, o calor do forno de tambor que ficava na varanda. Vida emoldurada de matéria simples, quase silenciosa.
   Essa vida moderna não tem nada de artesanal. Tudo é feito às pressas. Antes, a vida demorava para acontecer. A confecção de um vestido cumpria os passos de um ritual. A procura do modelo, a compra do tecido, os aviamentos, a escolha da costureira, a negociação. Depois, a primeira prova, a segunda, e, finalmente, o vestido pronto. Hoje não. Olha na vitrine e leva. Não há espaço para a espera que nos permite ocupar a mente. Os sabores não demoram em nós. O prazer da roupa nova é reduzido drasticamente ao momento da compra e ao primeiro uso. Antes, o prazer de procurar os detalhes. Deleite prolongado talhando a alma, tal qual a tesoura talha o tecido. A costura, os bordados, os reparos. O todo constituído de partes que nos ensinavam a saborear o período das esperas.
   Recordo-me. A jabuticabeira florida era epifania de uma felicidade de época. Alegrias com cores de novembro. Chuvas torrenciais que nos permitiam tardes de prazeres delicados. Observar a metamorfose das flores em frutos era satisfação sem preço. A natureza costurada de regras consumava diante de nossos olhos o ditado bíblico que diz que debaixo do céu há um tempo para cada coisa. Era o tempo alinhavando os destinos das floradas, enquanto no silêncio do coração uma primavera fora insistida em lançar pequenos brotos.
   Sou do tempo em que tristeza era curada com uma mala de roupa pra lavar. O sabão e sua espuma sugerindo limpeza. Por dentro e por fora. A mesma água lavando sujeiras diferentes, alvejando roupas e alma num mesmo movimento. Tanque cura tristeza. Sol quente favorecendo o desejo de quarar as mazelas do mundo, retirando as manchas do tempo, os desatinos do passado. A água e sua capacidade de atingir o mais profundo, ultrapassando a pele e chegando aos destinos mais ocultos. A sujeira da roupa sendo desfeita pela força dos gestos das mãos. Do gesto, o que se desprende, como se houvesse uma continuidade que os olhos não enxergam, mas que a alma recebe em silêncio, prostrada.
     [...]
   Sou do tempo em que jardim não era artigo de luxo. Cada família cultivava o seu. Hoje arrumaram até paisagistas para darem jeito nas feiuras do mundo. Solução fácil não existe. Cada um deveria cuidar da feiura mais próxima. Eu cuido. Tenho uma unha no pé esquerdo que é um desacato de tão feia! Faço de tudo pra melhorá-la. É só assim que o mundo pode ter jeito. Só quem cuida das unhas dos pés é capaz de realizar uma revolução estética na humanidade. Dizem que sou detalhista. Não sei se sou. Se acreditar que cuidar das miudezas é um jeito de construir a totalidade, então eu sou. Mas uma coisa é certa: mulher tem de usar brincos. O movimento do 'não' sem o barulho delicado de pequenos penduricalhos parece não ter autoridade.
   Acho que estou ficando triste, ou deprimida, não sei. - Me traz um pedaço de goiabada com queijo, minha filha!
     Antes prevenir, que remediar."


Simplicidade - Mulheres de Aço e de Flores - Fábio de Melo

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